Confissões de Julieta - Capitulo I

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Capitulo I - Sem Título

Sou um amontoado de emoções e sentimentos desorganizados. Esta é a melhor definição de mim mesma. 


Já passam das seis da manhã e o "E se" domina a minha mente, criando várias possibilidades de coisas vividas, ou talvez mal vividas, mal aproveitadas. De fato, meu nome não é Julieta e tão pouco tenho um Romeu que morra por mim, mas podemos dizer que vivo uma tragédia. 

É hora de levantar, viver mais um dia e deixar os meus pensamentos junto à minha cama. O vento frio da cidade monótona entra através da frestas da janela deixam ainda mais minha cama convidativa para passar o dia todo nela, mas eu também não conseguiria. Troco de roupa, penteio os cabelos, tomo café. Então saio para mais um dia. Moro em uma rua um tanto quanto movimentada, mas não deixa de ser tranquila. Pessoas felizes caminham aos seus destinos; outras nem tanto. O vento frio bate nas copas das poucas árvores existentes que balançam como tivessem me cumprimentando. Uma senhora varre a calçada, mas sabe que algumas horas depois seu árduo trabalho será em vão. Crianças despedem de suas mães e entram na Van escolar ano 1998. Outras coisas são tão comuns, diárias e rotineiras que nem me atento mais a elas. 

Chego ao meu primeiro destino do dia, o ponto de ônibus. Pessoas reclamam dos atrasos constantes da linha X e da linha Y, outras conversam sobre assuntos diversos e outras ainda ficam simplesmente em silêncio. Confesso, sou muito observadora, na verdade me tornei muito observadora. Os meus fones de ouvido tem a trilha sonora e o mundo é meu divã. Eis meu ônibus, a linha 15. Passo pelo menos 120 minutos do meu dia dentro desta linha, de segunda a sexta-feira. O motorista é um meia-idade simpático, mas visivelmente cansado pela sua rotina ou pela sua historia de vida não sabida. E lá está a senhora de cabelos brancos e de echarpe de tricô dos anos 70 que sempre senta-se no mesmo assento, o primeiro a direita do ônibus. O cobrador, esse sim exala mal-humor; não sei pelo seu mal salário ou porque sempre foi de mal de vida, ou talvez seja pelos dois motivos. Sento sempre no lugar mais próximo da porta e na janela; talvez porque eu ache interessante olhar o que me rodeiam enquanto eu continuo o meu caminho até a faculdade. 

Cheiros, cores e situações, sempre há alguma coisa nova durante os 40 minutos percorridos. Às vezes acabo encontrando nos rostos lá fora pessoas que já vivi no passado, algum colega de história ou até um ex-vizinho. Depois de minutos observando a vida lá fora, acabo entrando em um mundo paralelo: como seria se eu fosse mais compreensível ou se eu tivesse feito diferente naquele dia ou se eu teria uma vida diferente por um simples ato não feito no passado. São coisas que jamais poderei responder, afinal não tem como voltar no passado e reviver estes momentos e ver no que dariam se tudo fosse diferente. Só posso rezar para que o futuro não seja um passado confuso. Volto a mim, já estou quase no meu ponto final. Desço. Ainda tenho mais cento e trinta e dois passos até a porta da faculdade ou cento e treze se eu tiver com presa. Apesar dos meus vinte e cinco anos e de estar prestes a finalizar meu curso de Jornalismo não tenho muitas idéias do que serei daqui alguns meses. Ao contrario de muitas ex-colegas de salas e conhecidas da minha idade, não estou casada, tão pouco noiva e também não tive filhos. Tive alguns amores e muitas decepções. Moro com meus pais - ainda que adorem isto, não gosto muito - e luto em juntar grana dos freellas que faço quanto aparece, na intenção de ter algum bem material ou pelo menos suprir meus desejos momentâneos mais humildes. 

***

São quase duas da tarde, hora de voltar para casa. Confesso que as pontas duplas do cabelo da garota loira que sempre senta à minha frente me distraíram durante os minutos finais da aula. Nunca tinha reparado o quanto era mal cuidado o cabelo da menina que talvez seria a mais rica da minha sala; talvez riqueza nesta cidade não seria sinônimo de ser bem cuidada, ainda bem. Hoje resolvi fazer diferente, vou pegar o ônibus dois pontos depois, seguindo assim uma dica para uma vida mais saudável que ouvi uma vez em um programa daqueles de dona-de-casa. Claro que isto não ia mudar muita coisa, mas mudanças são sempre bem vindas não é?

A única coisa que senti depois de andar quatro quadras foi um cansaço gigante. Não foi uma boa idéia, droga. Além disso perdi o ônibus para casa por conta de cinqüenta metros. Definitivamente não é meu dia de sorte. Então penso "Calma, é só aguardar o próximo ônibus; quinze minutos não irá te matar". Ok, talvez não ou talvez sim. Aproveito esse tempo para checar alguns e-mails pelo celular (ou melhor, meus spams, pois raramente recebo um e-mail útil) e algumas coisas nas redes sociais. E não deveria ter feito isto. Bem na página inicial de uma desses livros abertos virtuais disponíveis para qualquer um stalkear e saber tudo sobre a sua vida estava a foto de um cara que gostei recentemente, ou será que eu era apaixonada? Não sei ao bem, sei que ainda sofro por este canalha. Diferente do casal ao meu lado que se olham como se tivesse se conhecido a uma semana e estão exalando amor. Definitivamente não tenho sorte no amor; e nem no jogo - nunca ganhei nem rodada de bingo beneficente. Logo o famoso ditado popular não funciona comigo. O melhor a se fazer neste momento é colocar meus fones de ouvido para isolar as lembranças reativadas do meu pseudo-relacionamento de 3 meses com este cara.

Apesar do pouco tempo do fim mal-resolvido, já pensei em tentar gostar de outro alguém ou tentar algo novo com alguém, mas quem disse que é fácil? O medo de relacionamentos tomou praticamente 90% do meu eu. Talvez estes 10% sejam a parte mais medrosa de mim, o que me impede de tomar qualquer inciativa. Ou pode ser que não tenho mais a cabeça de menina que sonhava com o príncipe encantado. Hoje para mim, eles não passam de fábulas e não acredito mais no amor como antes.

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